"No domingo vamos votar 'não'. Vamos votar 'não' no domingo." Isabel Rabaça, do movimento Guard'a Vida, rompe pela feira de Pinhel, distrito da Guarda, entregando panfletos e cartazes contra a interrupção voluntária da gravidez. Demora pouco tempo. As tendas dos vendedores que há dez anos se estendiam pelas ruas resumem-se, agora, a meia dúzia. E os compradores são a conta- -gotas.."Isto não é uma feira, é um mercado, um mercadito. Às vezes nem abrimos. É um passatempo. Trabalho no campo e venho ver se vendo algum farrapito", lamenta-se Maria Augusta, 54 anos. Ela já decidiu o que irá fazer domingo. "Acho bem estas campanhas, mas a cabeça de cada um é que sabe. Então as televisões não ensinam tudo? Eu digo que 'não' e outros dirão que 'sim'". Maria Augusta recebe um cartaz e coloca--o no pára-brisas da carrinha..Impossível foi convencer Josefina Silva, 45 anos, vendedora ambulante há 23. Nem a carrinha desmontou, tirou apenas meia dúzia de plásticos para expor na rua. "Acho que deve haver despenalização", diz perante o apelo de Isabel Rabaça. Esta contrapõe: "Há 30 anos que nenhuma mulher vai presa. A nossa missiva não é combater o aborto legal, é pedir condições para que as pessoas tenham os filhos com a dignidade que merecem." Ao que Josefina responde: "Não vão para a prisão, mas vão para os tribunais, para a praça pública. E não têm condições para ter filhos. Se uma adolescente engravida e a família não tem dinheiro, o que é que é melhor? A criança nascer e ir para uma instituição?" E a conversa continua num pingue-pongue de argumentos em favor e contra a despenalização do aborto..As poucas pessoas que estão no largo junto ao cemitério de Pinhel, onde semanalmente se realiza a feira, dividem-se entre velhos e menos velhos, homens e mulheres. Os idosos e os homens inclinam-se mais para o "não", enquanto que as mulheres em idade activa para o "sim". Há também quem tenha dúvidas sobre se irá votar ou mesmo quem prefira a abstenção. "A minha consciência é não ir votar, assim ninguém ganha", justifica António Ribeiro, 45 anos, agricultor..Sociedade dividida.O movimento Guard'a Vida dinamizou para a acção de rua três elementos além de Isabel: Inês Feijó, professora, Maia Caetano, director do quinzenário Pinhel Falcão, e Tiago Carvalho, estudante. Depressa perceberam que eram de mais para aquele mercado. "A agricultura está cada vez pior. Não temos indústria, a única fábrica que havia, a Rohde, fechou. Vendemos mais às pessoas da agricultura e essas não têm dinheiro", explica José Artur, 45 anos, que vende há 20 ferramentas agrícolas e utensílios de cozinha tradicionais, como trempes e panelas de ferro..A falta de feirantes e compradores não desmobilizou o grupo. Percorreram as ruas da cidade, não deixando pessoas ou viaturas sem uma mensagem contra o aborto. Ficaram com a sensação de que a batalha não está ganha no interior. "A sociedade portuguesa está muito dividida. Os meios rurais são maioritariamente 'não'. As cidades são maioritariamente 'sim'. Até aos 40 anos são maioritariamente 'sim'. Os mais velhos votam 'não'", sintetiza Rabaça, voluntária das Cáritas, instituição que abriu na Guarda o centro Nascer, para grávidas e mães. Acolhe seis mulheres, num espaço subsidiado pela Segurança Social, tal como todas as outras unidades fundadas pelas associações contra o aborto. .Menor grávida diz-se violada.Na feira, nos cafés, nas ruas ou no mercado, as conversas das gentes de Pinhel baixam de tom para falar da menor que está grávida e diz ter sido violada. Acrescentam que ela apresentou queixa. O caso acabou de rebentar e é o grande tema de discussão. Todos dizem conhecer a rapariga, cuja mãe saiu de casa há alguns anos, avançam com suspeitas sobre os agressores, tecem conjunturas e explicações sobre o que terá acontecido. "Já viu o que aconteceu à rapariguinha. E, agora, acha que ela tem de ter o bebé?", pergunta um. "Dizem que está quase com três meses, agora é que vem dizer que foi violada? Ela pode abortar com esta lei", diz outro. O DN confirmou junto das autoridades que há uma queixa de uma menor do concelho que diz ter sido violada. A PJ ouviu as pessoas envolvidas e entregou um relatório ao Ministério Público. Cabe ao procurador de Pinhel decidir se a actual lei pode ser aplicada neste caso.